A aposta de 1,6 bilhão do Canadá na Cohere só funciona se o campeão tiver poder de computação
Ottawa, Schwarz Group e Nvidia financiam uma IA soberana por meio de um campeão nacional, mas a bandeira é a parte fácil: poder de computação e clientes pagantes são o teste real.
Foto: Carl Lender from Sunrise, USA / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)
Um governo pode comprar soberania em inteligência artificial com um cheque? O Canadá está prestes a descobrir. Acabou de escolher seu cavalo, e a aposta é grande o bastante para que a resposta importe muito além de Toronto.
Ottawa não está dando um subsídio, está comprando uma participação
Em 29 de outubro, o primeiro-ministro Mark Carney anunciou que Ottawa fará um aporte de capital de até 1,6 bilhão de dólares na Cohere. Segundo o gabinete do primeiro-ministro, trata-se de um investimento comercial, anunciado junto com investidores privados, entre eles Nvidia, Bell e Schwarz Group. Ele faz parte de uma rodada Série E que busca até 7 bilhões de dólares canadenses (CAD), que, segundo a dpa, é liderada pelo grupo alemão Schwarz Group (Lidl, Kaufland) e avalia a empresa em cerca de 35,7 bilhões de CAD.
O detalhe mais importante não é o número da manchete. O The Globe and Mail informa que a Cohere se comprometeu a gastar 1,7 bilhão de dólares em infraestrutura de computação no Canadá até 2030 e a manter sua sede no país.
Uma bandeira não é uma barreira de proteção
O modelo do campeão nacional tem um apelo óbvio: escolher uma empresa, despejar dinheiro público e privado e chamar isso de soberania. Achamos que é uma aposta razoável, mas só se você entender "soberano" como uma característica técnica, e não patriótica. Um modelo que leva uma folha de bordo, mas roda na infraestrutura de outra empresa, nas condições dela, é um logotipo, não independência.
Por isso o compromisso de computação é a parte mais interessante do acordo. Ele amarra o dinheiro público a algo físico e verificável. E também é modesto diante da ambição. Ninguém deveria ler um compromisso até 2030 como prova de que o Canadá agora tem capacidade em escala de fronteira. Nós o trataríamos como uma entrada, e gostaríamos de ver avanços a cada ano, não só o número final.
O discurso da Cohere, pelo menos, é coerente. Segundo a dpa, sua tecnologia foi projetada para funcionar de forma independente das grandes operadoras americanas de data centers e pode rodar em nuvens privadas, no hardware do próprio cliente ou em ambientes totalmente isolados. Para bancos, sistemas de saúde e governos, isso é um argumento de venda real, não um slogan.
O cliente é o verdadeiro soberano
É aqui que somos mais céticos em relação ao oba-oba. A soberania não vem de quem é dono das ações, mas de quem depende de quem. Um campeão só sobrevive se setores regulados e governos de fato o escolherem em vez de alternativas mais baratas ou mais vistosas, e continuarem escolhendo.
A Cohere fez uma escolha que ajuda. Ao contrário da OpenAI ou da Anthropic, ela se concentra exclusivamente em empresas e governos, e não em consumidores, segundo a dpa. É um mercado mais estreito, porém mais fiel, e o oposto de um concurso de popularidade. A parceria com a Schwarz também parece inteligente: a divisão de TI do grupo quer levar os modelos da Cohere para sua própria nuvem STACKIT. Seu CEO, Christian Müller, disse que soberania digital é sobre "liberdade estratégica de escolha, interoperabilidade e manter as chaves dos seus próprios dados em suas próprias mãos" (tradução nossa do alemão). Isso é um cliente falando, e clientes são o que um campeão precisa.
O acordo com a Aleph Alpha aponta na mesma direção. Foi apresentado como uma "fusão transatlântica", mas é, na prática, uma aquisição da empresa de Heidelberg pela Cohere, que mantém Heidelberg como polo central de pesquisa e desenvolvimento, ao lado de suas sedes em Toronto e Berlim. O ministro alemão do Digital, Karsten Wildberger, disse que isso criaria "um campeão global de IA" (de novo, tradução nossa). Tudo bem. Mas isso também mostra como o modelo do campeão funciona na prática: concentrar talentos escassos numa única entidade e torcer para que a escala venha. Se as prioridades canadenses e alemãs continuarão alinhadas quando entrarem em choque é uma questão em aberto.
Melhor que a maioria das políticas industriais, mas ainda uma aposta muito grande
O acordo é mais bem desenhado que a maioria das políticas industriais. É participação societária, não subsídio, com condições sobre sede e computação. Isso coloca os contribuintes no mesmo barco dos investidores privados, o que é mais saudável do que o subsídio de sempre.
Os riscos, porém, são reais. Observadores do setor veem a rodada como possível preparação para uma oferta pública inicial (IPO), o que é especulação, mas sugere para onde os incentivos podem derivar. Dinheiro público e mercados de capitais nem sempre querem a mesma coisa. E uma Série E com essa avaliação deixa pouco espaço para decepção.
Nossa recomendação a outros governos que estão de olho: copiem as condições, não a manchete. Perguntem que hardware será construído, onde e quem assina os contratos. Se a Cohere conseguir mostrar clientes corporativos e do setor público migrando cargas de trabalho reais para uma infraestrutura soberana, tudo isso vai parecer visionário. Se não, o Canadá terá comprado uma bandeira caríssima.
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