O susto das ações de IA: o mercado pede provas, não dá um veredicto
Mais uma queda global das ações de IA parece menos uma rejeição da tecnologia e mais uma cobrança por receita duradoura em vez de histórias de gastos.
Foto: Negative Space / Wikimedia Commons (CC0)
O mercado está perdendo o encanto pela inteligência artificial? Achamos que não. Ele está perdendo o encanto por acreditar na palavra da IA, e são coisas bem diferentes.
O último susto foi global e veio depois de um período difícil. O LA Times classificou a sexta-feira passada como o desfecho da pior semana do mercado desde o fim de junho. Nesta quinta-feira, segundo a Reuters, os índices de ações caíram depois que o balanço da Meta reacendeu a preocupação com o pesado gasto de capital do boom da IA.
O gatilho é a conta, não a tecnologia
Olhe o que tem assustado os investidores. O The Guardian associou a queda de meados de outubro ao temor de inflação em alta e de futuros aumentos de juros, e a cobertura da CNN apontou juros em alta e dívida de IA. Nada disso diz que "os chatbots não funcionam". Diz que o dinheiro está ficando mais caro justamente quando o gasto com IA aumenta, e a conversa sobre dívida de IA sugere que o endividamento faz parte do quadro.
É uma reprecificação de promessas. Quando o capital é barato, uma empresa pode dizer: "vamos gastar pesado agora e a receita virá". Quando juros e inflação preocupam, o mercado quer data e número. Na nossa visão, isso é saudável e, talvez, já tardava.
Boas notícias já não garantem uma alta
O sinal mais claro não é deste mês. Em novembro passado, a Nvidia divulgou bons resultados e as ações subiram por pouco tempo, mas reverteram em um dia. Como noticiou a BBC, um analista da StoneX disse que "o que deveria ter acontecido não aconteceu". Um gestor de portfólio citado pelo Guardian fez a distinção essencial: a empresa que vende os chips se beneficia, mas os clientes que os compram podem estar gastando demais.
Essa é a linha de falha que acompanharíamos. Quem vende chips tem receita hoje. Quem gasta muito tem uma linha de capex e uma esperança. O mercado parece estar separando os dois aos poucos, e a queda desta semana após o balanço da Meta sugere que ele está cada vez mais disposto a punir quem gasta, mesmo quando a história é empolgante.
Como serão os vencedores
Esperamos que a próxima fase premie algo de aparência entediante: receita recorrente. Clientes que renovam, uso que se paga, margens que sobrevivem à depreciação de todos esses data centers. Anúncios de capex, sozinhos, provavelmente deixarão de funcionar como catalisador e podem virar um peso.
Uma ressalva, e honesta. As quedas se recuperaram rápido: a Reuters informou que ações ligadas à IA se recuperaram na segunda-feira, com o alívio dos rendimentos dos títulos e do petróleo. Ou seja, as condições macroeconômicas, e não só os fundamentos da IA, claramente movem as oscilações. Por isso um único dia é um mau guia, e também não tomaríamos uma alta como prova.
Outra visão que vale registrar: um texto do Yahoo Finance argumenta que os preocupados deveriam olhar mais para o risco de oferta na construção da infraestrutura do que para as avaliações. Não vimos o argumento completo, então não vamos nos apoiar nele, mas ele sugere que o debate pode estar saindo de "é uma bolha?" para "dá para entregar e pagar?".
Nosso veredicto
Se você é investidor, a lição não é fugir da IA nem comprar em toda queda. Faça a cada empresa uma pergunta: de onde vem o dinheiro e quando? As que tiverem resposta ficarão melhores a cada susto. As que só tiverem um plano de gastos ficarão piores. A tecnologia não está no banco dos réus. Os modelos de negócios estão, e, pela primeira vez, o júri quer provas.
Ainda não há temas: abra o primeiro.
Mais matérias
Meta segue superando a receita prevista, e Wall Street ainda quer provas de retorno em IA
A Meta superou de novo a própria projeção de receita, mas seu investimento em IA já custa mais do que o negócio gera em caixa, e o mercado quer ver retorno.
A promessa da Palantir de que não há "kill switch" não resolve a dependência da Europa
A Palantir diz que ninguém pode desligar o sistema Maven da Otan. Mesmo que seja verdade, a Europa teme quem escreve, atualiza e opera o software que ela não consegue construir sozinha.
Os 5 mil cortes do Barclays: "IA" não deveria ser um jeito educado de dizer corte de custos
O Barclays vai cortar cerca de 5% do quadro e atribui isso à IA, mas, pelo que vimos, não demonstrou os ganhos de produtividade. Que os comprove antes de usar a IA para justificar demissões.
O teste da Waymo no aeroporto é maior que outro lançamento de robotáxi
O serviço no aeroporto de Las Vegas coloca a Waymo no único cenário em que a direção autônoma precisa conquistar a confiança de viajantes estressados, não apenas impressionar curiosos.



